quinta-feira, 29 de outubro de 2009

mentira

Toda a minha vida menti muito bem. Tenho a capacidade de ser convincente ao contar uma mentira. Talvez por saber que a mentira só vai longe se lhe inserirmos uma verdade no meio. Ao fazermos isso ficamos mais seguros ao contarmos a mentira. E então acreditam em nós, porque não gaguejamos, não piscamos o olhos, não coramos nem temos essas reacções involuntárias que aparecem quando estamos a mentir. Porque afinal essa mentira também é verdade.
Deixei de mentir quando comecei a amá-lo. Não precisava de usar uma máscara, nem convencer os outros de nada. Toda eu era verdadeira e sincera, sempre. Ou quase sempre, afinal toda a gente conta mentirinhas piedosas ou insignificantes, não é?
Agora que o perdi, minto de novo. Tenho que convencer quem me rodeia de que ainda estou de pé, quando por dentro ruí completamente. Digo a toda a gente que estou bem, e que foi melhor assim.  E minto com um sorriso na cara, sem tremer, nem gaguejar, sem piscar os olhos e sem corar. Convenço-os porque o que lhes digo tem uma verdade: foi melhor assim. 
E até a mim mesma minto, ao dizer-me que esta tristeza vai passar e que vou deixar de o amar, e vou voltar a ser a pessoa feliz que sempre fui. Mas nao consigo ser convincente, porque nao há nenhuma verdade aí no meio.

Pelo menos, ainda não.

4 comentários:

Anónimo disse...

Eu não sei mentir bem. Descobri-o muito cedo e, por isso, deixei de fazê-lo. À medida que fui crescendo, comecei também a perceber que a minha consciência não ficava sossegada se mentisse. Por isso, minto muito raramente e sempre associado às chamadas mentiras piedosas ou sociais ("A minha bebé é tão bonita, não é?" - quem vai dizer que é feia, mesmo quando é?).

Também me tornei muito bom a apanhar mentiras. Já me disseram que tenho tanto jeito que deve haver algo de Sherlock Holmes em mim. :-)

SadLonelyCat ^_ _^ disse...

Mister Peter, eu nunca fui apanhada. Nunca nos devemos ter encontrado! E o Sherlock Holmes sempre me fascinou... :)

Anónimo disse...

Tendo em conta que vivo e sempre vivi em Lisboa e tu vives em Aveiro (não sei se já viveste noutro local), nunca nos devemos ter encontrado, não.

Sempre te fascinou porquê? Conta lá...

SadLonelyCat ^_ _^ disse...

Mister Peter, o fascínio é pelo lado negro e pelo tipo de inteligência que o Sherlock tem... :)