Toda a minha vida menti muito bem. Tenho a capacidade de ser convincente ao contar uma mentira. Talvez por saber que a mentira só vai longe se lhe inserirmos uma verdade no meio. Ao fazermos isso ficamos mais seguros ao contarmos a mentira. E então acreditam em nós, porque não gaguejamos, não piscamos o olhos, não coramos nem temos essas reacções involuntárias que aparecem quando estamos a mentir. Porque afinal essa mentira também é verdade.
Deixei de mentir quando comecei a amá-lo. Não precisava de usar uma máscara, nem convencer os outros de nada. Toda eu era verdadeira e sincera, sempre. Ou quase sempre, afinal toda a gente conta mentirinhas piedosas ou insignificantes, não é?
Agora que o perdi, minto de novo. Tenho que convencer quem me rodeia de que ainda estou de pé, quando por dentro ruí completamente. Digo a toda a gente que estou bem, e que foi melhor assim. E minto com um sorriso na cara, sem tremer, nem gaguejar, sem piscar os olhos e sem corar. Convenço-os porque o que lhes digo tem uma verdade: foi melhor assim.
E até a mim mesma minto, ao dizer-me que esta tristeza vai passar e que vou deixar de o amar, e vou voltar a ser a pessoa feliz que sempre fui. Mas nao consigo ser convincente, porque nao há nenhuma verdade aí no meio.
Pelo menos, ainda não.