Nestes anos todos nunca estivemos mais de um dia inteiro sem nos comunicarmos. E mesmo assim era um dia inteiro de desassossego. Faltava-nos algo. Porque éramos parte um do outro e o que nos acontecia só se tornava real quando o partilhávamos entre nós. Agora, o tempo vai passando, dia após dia, e nada. Silêncio. Vazio. Às vezes parece que nada tem corpo, nada se materializa.
Aos poucos vou-me habituando a não ouvir a voz dele. A não telefonar, não mandar mensagens mesmo quando tenho alguma coisa nova para lhe contar.
Porque eu tenho sempre qualquer coisa para lhe dizer: que me sinto sozinha, que sinto falta da voz dele, e dos beijos, e de tudo... Mas também que já consegui ser feliz sem ele (só às vezes, por um bocadinho), e que há uma data de coisas novas na minha vida, onde ele já não está presente. Que me estou a tornar numa pessoa diferente, mantendo-me forte e tornando-me mais independente.
E se calhar ele ia gostar de ouvir isso tudo. Se calhar ele ia gostar de me ouvir dizer que acho que a tristeza que sentimos agora faz parte de cada um de nós, está a ocupar o espaço que antes era o meu nele e o dele em mim, e que como nós, se calhar um dia nos vai abandonar também. E que acho que ele ia gostar de saber disso tudo.
Mas o tempo vai passando, dia após dia, e nada. Silêncio. Vazio. Eu não lhe conto nada e por isso nada é real…